quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Pesadelos ou Terrores Noturnos? Parte I


Por vezes, é normal que as crianças acordem a chorar, estando os medos relacionados com a sua atividade onírica, os sonhos, ou na sua pior "espécie": Os pesadelos. No entanto, muitos dos pais sentem-se confusos sobre o que fazer, ou como reagir para confortar a criança. É importante distinguir “sonhos maus” de terrores noturnos, pois estes exigirão, por parte dos pais, formas distintas de acalmar a criança!



Terrores Noturnos

A fase dos terrores noturnos é mais frequente por volta dos dois, três anos. Estes são característicos da fase de mudança do ciclo de sono, e correspondem a uma altura em que a criança está alheada da realidade. Neste caso, a criança não chega a acordar completamente, mas grita e chora intensamente, parecendo por vezes que quer defender-se de algo. É normal que os pais se assustem e encontrem o seu filho de olhos abertos, sentado na cama, mas sem fixar o olhar, naquilo que parece ser, um elevado estado de desorientação e pânico. Pode acontecer inclusive que a criança evite os pais, rejeitando a sua ajuda, já que estes podem assumir um papel não reconhecido no contexto do evento do terror noturno. No entanto, de manhã, a criança acordará sem qualquer recordação do episódio. 



Como lidar?
 
Não devemos tentar acordar a criança, apenas evitar que ela se magoe, tentando manter a calma e aguardando que o evento passe. É garantido que vai passar, por mais longo que pareça aos pais. Poderá ajudar apresentar uma “solução reparadora”, sem acordar a criança ou pegá-la ao colo, sendo que o contacto físico forçado, poderá ser respondido pela criança com brusquidão - é neste ponto que os pais tendem a assustar-se com a reacção e ficam mais baralhados que a própria criança:” Quando tentei pegá-lo ao colo, deu-me um safanão no meio de gritos…”

Poderá ser importante reforçar que está tudo bem, numa voz calma e tranquila, tentando reencaminhá-la para o sono, através da “condução de ideias” que referenciem elementos familiares e conhecidos da criança, eventos preferidos do dia-a-dia, que esta identifique como agradáveis ou mesmo divertidos. Esta solução que é a relatada como a de maior sucesso, age no sentido de “puxá-la “ do inconsciente indefinido" e agitado, e assim diminuir a intensidade do pânico com vista a cessá-lo mais depressa. De facto, tentar acalmar pode não resultar, e lembre-se que, por mais estranho que pareça, o seu filho não está a sentir medo, não está consciente e acima de tudo, não está possuído por alguma “força oculta”. Pode ser ansiogénico para os pais assistir ao “estado de pavor” da criança, mas estes episódios, quando não muito frequentes em continuidade, são normais e fazem parte do desenvolvimento. O maior pavor é, de facto, sentido pelos pais! 



Pesadelos
( Saiba como lidar com os Pesadelos no meu próximo "post")!


sexta-feira, 22 de agosto de 2014

5 Mitos sobre o Sono do Bebé

Comprometem bons hábitos do sono, mas acima de tudo atrapalham a sua consolidação desde cedo...

Saiba reconhecer um mito quando está perante um...


5 Mitos a saber!

#Mito 1: Não se deve acordar um bebé que dorme durante o dia!


É verdade que não se deve acordar um bebé recém-nascido durante o dia, e com um intervalo máximo de 4 horas, também durante a noite, assim como em situações de baixo peso ao nascimento e prematuridade. Porém, esta situação não deve ser estendida a todo o universo dos bebés, especialmente quando se trata de dar oportunidade de regular os seus ritmos, e claro para o ensinar a dormir à noite.


#Mito 2: Quanto menos dormir durante o dia, mais e melhor dormirá à noite!

Se o bebé dorme menos do que a sua fase de desenvolvimento físico necessita, ao longo do dia, é algo que se refletirá num sono mais agitado - com maiores períodos de sono leve durante a noite, e logo maior predisposição para acordar, ou incapacidade de consolidar o sono noturno continuo.


#Mito 3: As sestas devem ser com luz para distinguir o dia da noite!

O esforço de usar luz e estímulos como condições por excelência para o bebé dormir de dia, para que saiba dormir à noite, pode, além de comprometer a qualidade das sestas, não alcançar o efeito desejado durante a noite.


#Mito 4: Abanar um bebé, acalma-o!

Desde que nos conhecemos que temos a imagem recorrente de ver os bebés ao colo a serem abanados e às vezes "achocalhados" . Saiba que este movimento além de não acalmar, agita o bebé e impede- o de focar a visão.


#Mito 5: Quando o bebé chora para dormir, está a lutar contra o sono!

Nem tudo o que parece, é. A ideia que os bebés pequenos não gostam de dormir deve ser desmistificada. Esta ideia pouco lógica remonta a uma época que pouco se sabia sobre a área comportamental do sono do bebé e o seu desenvolvimento.



quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Dicas para as Férias!


As férias são sempre esperadas, mas são também um desafio para manter os bons hábitos: Dicas para mostrar ao bebé que o contexto, o lugar, as pessoas podem mudar,mas o resto é para manter- Ele pode contar consigo para isso!

Nesta altura são muitas as famílias que estão de férias e podem ser confrontadas com diferentes hábitos e sugestões de amigos e familiares, assim como ambientes diferentes, inclusive o mais popular da estação: A PRAIA!

Poderá ser uma tarefa mais desafiante para os pais, em especial por alguma pressão alheia. Mas mantenha a consciência de que é extremamente importante seguir uma rotina ajustada para consolidação de bons hábitos, mesmo em meios e contextos diferentes, e que poderá evitar choro de desgaste e rabugice, fora de casa, ou em público.

Eis algumas dicas:

1) Ajude-se a si mesma: Planeie os seus dias, de forma a usufruir das suas férias, mas sabendo com o que conta! Por isso, mantenha as rotinas do seu bebé, para maior previsibilidade, e menos desilusões e expectativas furadas.

2) Mantenha os mesmos intervalos de alimentação/horários de refeição do seu bebé. Se necessário antecipe-as (bebés na praia, em especial com vento, ou em demasiadas andanças e programas, podem beneficiar com essa proação, pois ficam com mais fome, e com sono, mais cedo).

3) Mantenha horários das sestas. E mais uma vez, caso seja um bebé com menos de 12 meses, poderá antecipar, especialmente em ambientes com vento.

4) Lembre-se do que o bebé está habituado! Reproduza a "base desse hábito" fazendo apenas o "update" do ambiente (que é novo), com algumas adaptações. Comece a proteger o ambiente, e a acalmar o bebé, quando mostra os primeiros sinais de sono. Se necessário, adapte o ritual de acalmar, mas mantenha os mesmos princípios lógicos da redução de estímulos.

5) Ensine o bebé abstrair-se. Como se faz isso? Consegue-se através da capacidade de abstração do cuidador, controlando a respiração e evitando fazer os chamados "suspiros de frete" ou impaciência, tons de comiseração, e claro, mantendo a consistência até que o bebé aprenda a fazer o mesmo. Caso tenha ensinado o bebé a sintonizar-se consigo, será mais fácil, porque ele estará habituado a começar a acalmar apenas através da influência da sua respiração e batimento cardíaco, em combinação com a lentidão das palavras.

6) Mantenha o ritual de dormir de forma similar ao que é feito em casa! Recorra, se necessário, à imaginação e adapte (reduzindo o estímulo, falando da mesma forma, utilizando as mesmas referências ou as disponíveis mais parecidas).

7) Caso tenha de introduzir algumas diferenças/mudanças, não se esqueça de manter a maior proximidade possível com a "base da rotina" que faz usualmente (se estiver ajustada)! Fazendo tudo o resto de forma igual ou o mais próximo possível, protegendo os mesmos princípios chave.

8) O importante para o bem-estar do bebé é ter alguém que o oriente de forma carinhosa e consistente! Dessa forma, lembre-se que poderá sempre corrigir algo no dia seguinte e voltar a regulá-lo dentro do padrão desejado, isto perante dias ou eventos de exceção.

9) Convença-se a si, mas ao bebé também, que vai correr tudo bem!...Vai ver que será mais fácil ele confiar e acalmar em contextos diferentes, ou perante alguma mudança.

10) Pense que não está sozinha/o! Muitos pais sentem este desafio quando vão de férias! Parabéns a si por querer proteger o bem-estar máximo do bebé, mesmo em férias!


Saiba mais na minha nota "Os bebés e praia" e também no artigo Dias de exceção: A rotina e o sono!...

(http://crescer.sapo.pt/bebe/perguntas-frequentes/dias-de-excecao-a-rotina-e-o-sono).




sexta-feira, 16 de maio de 2014

Causas que incentivam e enraízam o despertar na madrugada - Parte II: Pouco (e/ou desajustado) sono diurno

O sono de um bebé deve ser sempre analisado como um todo, mas com dois contextos e ritmos diferentes. O sono diurno – sestas - e o sono da noite.

O sono que o bebé faz durante o dia influencia o sono da noite e muitas vezes essa importância é subestimada com base no mito: “quanto menos dormir durante o dia, melhor vai dormir à noite”. No entanto tal pode ser verdadeiro se o bebé dormir por mais de 3 horas seguidas durante o dia, e dependendo do encaixe dessa sesta no dia, pois isso poderá inverter a noção do bebé acerca do sono da noite e a do dia.

Quando o bebé não está a dormir o que precisa (duração total das sestas), na distribuição ajustada (horário das sestas ao longo do dia) e sob os hábitos adequados durante o dia, o sono da noite, caso ainda não tenha dado sinal, poderá começar a ficar interrompido com despertares a meio da noite. Por vezes sou questionada porque é que nas minhas intervenções no terreno, resolvo os problemas de sono nocturno do bebé, durante o dia, por ser algo curioso para muitos pais. É porque é onde se tem o melhor terreno de aprendizagem e prática em relação à conciliação do sono e mesmo ao readormecer entre ciclos circadianos (de 45 minutos cada). Praticamos de dia, algo a ser implementado de forma contínua durante a noite, sem interrupções demarcadas para atividade e, desde cedo, para alimentação (através de um desmame sólido e seguro).

Assim, o sono do dia é uma preparação diária para a melhoria e consolidação do melhor sono da noite. Para complementar deve haver um conjunto de referências, a par de uma mudança de postura e resposta por parte dos pais, para a distinção do dia da noite, para ajustar a expectativa do bebé, em sintonia com rituais de referenciem o final do dia.

Se o bebé dorme menos do que a sua fase de desenvolvimento físico necessita, ao longo do dia, é algo que se reflectirá num sono mais agitado - com maiores períodos de sono leve durante a noite, e logo maior predisposição para acordar, ou incapacidade de consolidar o sono noturno continuo. Caso o bebé se habitue a dormir menos do que precisa para a idade, durante o dia, poderá dar-se também um acumular de situações indesejadas ao ponto se enraizarem em hábitos: se o bebé ao dormir pouco durante o dia, estará mais propenso a alimentar-se pior (mais sôfrego, ou mais desconcentrado, ou com menos quantidade), assim como a ter tendência para diminuir intervalos entre refeições, a ter mais momentos de choro e rabugice ou mesmo de exaustão, tornando-se muito exigente. Neste caso, todo este acumular tende não só a comprometer a qualidade de sono à noite, como a de potenciar o despertar por fome durante a madrugada, além do reflexo de hiperestimulação diurna. O sono potencia o sono, quanto menos o bebé dormir (do que precisa), mais difícil será o seu sono seguinte.

Obviamente a distribuição do sono diurno é muitíssimo importante, daí que o bebé precise de fazer um ritmo de sono diurno que tempere a estimulação dos momentos de atividade com verdadeira “absorção” de informação, com o modo profundo de processamento, reparação e crescimento, ou seja o dormir. As sestas de tempo ajustado protegem também o seu cérebro de deixar de reter informação de forma qualitativa enquanto acordado, e evitam o empurrar do bebé para estados de desconcentração e aceleramento físico ao ponto de poderem influenciar o seu comportamento a médio e longo prazo (e até o dos pais) e mesmo o seu temperamento.

O bebé só precisa de estar acordado em momentos que possam ser de qualidade para ele, e quando demonstrar sinais de sono, será correcto mudar de ritmo - começar a acalmar - para poder depois aprender a adormecer, e dormir, o tempo ajustado. Claro que só será tão simples caso se encare o sono como uma das aprendizagens mais estruturais do Ser Humano, em idades de rápido crescimento, e possa haver, por parte dos pais, dedicação ao mesmo nível que há para outras aprendizagens importantes. Caso contrário é mais típico que dormir pouco ou mal, se possa tornar um hábito.





quarta-feira, 14 de maio de 2014

Causas que incentivam e enraízam o despertar na madrugada - Parte I

É importante que o sono do bebé não seja analisado como um campo independente a qualquer outro campo relevante da vida do bebé. É preciso coordenação nos hábitos de alimentação, atividade e comportamento. Estes influenciam directamente o sono e vice-versa. Por exemplo: um bebé que não come bem, é um bebé que tendencialmente não dorme bem. Curiosamente o contrário também se verifica. Um bebé que tem actividades desajustadas para a sua capacidade de processamento, seja em duração ou em tipologia, é um bebé que não dorme bem. Curiosamente quando um bebé não dorme o que precisa, os seus momentos estando acordado podem ficar mais desconcentrados e rabugentos. Estes são só alguns exemplos. Para o melhor desenvolvimento e aprendizagem são necessárias as melhores experiências enquanto os bebés estão acordados. As melhores experiências enquanto acordados, precisam da melhor experiencia ao nível do que as agrega e processa - o sono.


Convido-a a conhecer mais acerca do início das causas que fazem o bebé chorar e acordar a meio da noite, e as causas que o fazem enraizar esse despertar num o hábito. Neste artigo analisarei a primeira destas causas: a Fome, nos próximos artigos abordarei as restantes: o pouco sono diurno, o adormecer comprometedor, a rotina desajustada, as repostas dos pais que intensificam estes despertares, a hiperestimulação nas atividades diurnas e as causas ambientais.


 1# Fome:

Porque o corpo está em rápido crescimento, toda a alimentação que não for feita durante o dia o bebé terá tendência para compensar durante a noite. O bebé acordará pelo desconforto da fome, noite após noite e mesmo mês após mês, caso continue impercetível aos olhos dos pais que durante o dia consideram que comeu o suficiente. O bebé está a crescer a uma velocidade incomparável com qualquer outra fase da vida, e como tal, precisa de um aporte calórico capaz de o satisfazer durante as 24h, parte delas a dormir, e por isso mesmo deve ser orientado para se alimentar de forma evolutiva, idealmente durante o dia, pois caso contrário irá comprometer continuamente o sono nocturno, em especial na passagem dos impulsos de crescimento.

A importância de ensinar a comer bem durante o dia é tanta, como a de ajustar os seus ritmos de alimentação à sua idade, numa rotina diurna ajustada. Esta rotina deve contemplar uma ajustada preparação do desmame noturno, sem isso, poderá ser difícil o bebé gradualmente atingir a capacidade de dormir cada vez mais horas sem a necessidade de interromper o sono para se alimentar durante a madrugada. E pode bastar um dia, ou uma refeição com menos quantidade para se revelar num ou vários despertares a chorar durante a noite.


“Impulsos de crescimento”

Normalmente apanham os pais desprevenidos e podem enraizar o hábito de despertar. São surtos de crescimento que provocam um aumento de fome, que duram aproximadamente 3 dias, após as 6-8 semanas (tipicamente o primeiro impulso) e depois podem repetir-se cada mês, ou de 6 em 6 meses aproximadamente. Durante o dia o bebé poderá esboçar esse aumento de fome, ou em sestas mais curtas, mais choro, ou simplesmente um rapar do prato. Se os Pais não estiverem atentos e não tiverem o hábito de oferecer mais alimento nestas circunstâncias, o bebé tenderá a compensar a fome durante a noite (por não a ter satisfeito durante o dia). Se nada se fizer em prevenção (ou seja, durante o dia) podem bastar 3 noites seguidas em que o bebé não pode evitar começar aí mesmo um hábito de despertar àquela hora, mesmo que já não tenha fome, após o impulso de crescimento.


“Intervalos de alimentação diurna não adequados à idade”

Os bebés terão capacidade de aumentar os seus intervalos de alimentação durante o dia, caso estejam a comer o que de facto precisam em cada refeição – se esta for capaz de fornecer energia suficiente para o bebé ter o seu tempo ajustado de atividade e ainda conseguir dormir o tempo ajustado de sono nas suas sestas.

Os intervalos entre refeições não evoluírem poderá advir dos pais inadvertidamente passarem o dia alimentar o bebé, que tendo peso para mais, ingere leite/alimento de pouco em pouco tempo. Depressa o bebé fica adepto de lanchinhos em vez de refeições que o satisfaçam pelo tempo ajustado, isto pode acontecer porque:

- O bebé não se alimenta o suficiente porque os pais não podem controlar nem a quantidade nem a concentração calórica (quando a amamentação não está regulada), daí que não aguente muito tempo;

- Se começou a usar a amamentação como resposta para diferentes causas de choro que não apenas da fome. O bebé passa então a ingerir para comer, dormir, ou para satisfazer qualquer questão de desconforto.

Ambas não vão permitir que o bebé evolua para um aumento de tempo a dormir sem acordar de noite com fome. As necessidades calórico-nutritivas de um bebé devem acompanhar o desenvolvimento em 24h do seu rápido crescimento, e isso fará o bebé ter a necessidade de compensar durante a noite, despertando. Se o seu bebé está a diminuir os intervalos de despertar, por fome, durante a madrugada, será necessário por em questão se a quantidade, a concentração calórica ou os intervalos que faz durante o dia, o permitirão evoluir em maiores tempos de sono continuo. Ninguém espera que nasça com essa capacidade física alcançada, mas evoluirá mais ou menos depressa também dependendo da importância que se der a esta questão. Não faz sentido, nem é benéfico, um bebé de 9 meses fazer um intervalo entre refeições de 2 horas ou mesmo 3h durante o dia. Obrigatoriamente irá ingerir menos e o seu estômago será ajustado a menos quantidade. Se o estômago for menor do que as suas necessidades de desenvolvimento, este bebé poderá ter razões para não aguentar mais de 5/6 a dormir sem despertar por fome durante a noite. As sestas obviamente ficarão igualmente comprometidas.


“Ausência de uma preparação diária para o desmame noturno”

O desmame noturno só estará próximo de acontecer de forma consolidada (e evitando retrocessos), caso se faça essa preparação todos os dias de forma gradual. Muitas vezes acontece que se espera tempo demais para começar essa preparação sólida. Poderá ser já tarde demais porque o bebé já poderá ter enraizado o hábito de acordar, poderá já ter associado algum desconforto ao berço, mesmo nas noites em que acorda sem ser pela razão da fome.

Informo constantemente os pais que não é durante a madrugada que se prepara o trabalho do desmame noturno. É algo preparado de forma proactiva e por parte dos pais, orientando o seu bebé numa rotina e no ensino de bons hábitos de alimentação durante o dia, num “cluster feeding” combinado com sono.

O desmame noturno só pode suceder quando todos os outros campos estão satisfeitas e o bebé naturalmente deixa de acordar por ter fome. Muitas vezes os pais forçam a esta situação, por apenas avaliarem o peso do bebé, desconhecendo que o desmame noturno se conquista através de medidas concretas e proactivas durante o dia, e não numa imposição por parte dos pais durante a noite. O desmame nocturno deve continuar a ser consolidado mesmo depois dessa conquista, para enraizar o hábito de forma segura.


Quando a preparação do desmame nocturno é iniciada desde cedo, o bebé tem hipóteses de consolidar o seu sono de forma contínua na madrugada, pois é a fome a causa inicial para que, enquanto recém-nascido, acorde. Ao ser resolvida, torna-se mais fácil poder intuir todas a outras causas (que abordaremos nos próximos artigos sobre este tema).




quinta-feira, 27 de março de 2014

Co-sleeping: Sim, Não ou Nim?

O co-sleeping é defendido por muitos como sendo a fórmula que transmite a maior segurança ao bebé e à criança. É defendido por seguidores do “método contínuo” que afirma, de forma lata, que o bebé após o nascimento deve continuar como extensão do corpo da mãe, para minimizar o trauma do nascimento (a primeira separação física). O “método contínuo” poderá entrar em eventual ruptura em famílias que o apliquem sem profundo conhecimento das suas implicações, à medida que o bebé cresce, numa sociedade, que sendo boa ou má, é aquela em que vivemos.

Por vezes, os Pais sentem um deslumbre por metodologias que os aproximam de vivências mais naturalistas, algumas mesmo de índole tribal, pela sua proximidade ao desejo idílico de vida (perfeitamente desejável e compreensível) começando hábitos que na prática não podem, ou não conseguem, sustentar - seja porque terão de regressar ao trabalho sem os filhos, seja assumindo a necessidade de ter momentos sós, enquanto adultos e casal, etc.). O desequilíbrio e “desilusão” para bebés e Pais pode dar-se aqui mesmo.

É justo que para a noção de segurança emocional do bebé, os pais possam aproximar aquilo que começam a dar “hoje”, àquilo que planeiam conseguir manter, no mínimo, no futuro próximo (em especial, seja quando a criança tiver um irmão, for para a creche, ou um dia para a escola). É bastante compreensível que se o bebé aprender que só é seguro dormir com a Mãe/Pai, apenas com eles se sinta confiante assim, ou no mínimo em companhia - esperando essa companhia para o total número de horas que durma. Se os pais não estão certos que querem que o seu bebé aprenda apenas a sentir-se seguro em “extensão “ do corpo da Mãe, à medida que cresce, deverão “jogar pelo seguro” relativamente à proteção das emoções do bebé.

É necessário o entendimento dos pais que o mimo, a atenção, e o Amor indispensáveis, não são movimentos exclusivos apenas do momento de dormir. O Amor a compreensão, a atenção e mimo, devem estar presentes em todas as expressões da educação e em todos os momentos da relação sob variadas formas em respeito do contexto, todos os dias e durante o seu crescimento. Um bebé não é mais amado que outro porque passa o dia inteiro ao colo dos pais, ou dorme com os pais. Amar um filho é querer o melhor para ele hoje e sempre, e não apenas no próprio minuto. Mas se os pais apenas conseguem garantir o apoio e a estruturação emocional através da proximidade física, por exemplo durante a noite de sono - seja porque não têm outro tempo de contacto, seja porque não sabem como fortalecer esse pilar no dia-a-dia, para além do momento de ir dormir - talvez o co-sleeping seja uma ferramenta importante (e talvez indispensável) para que a criança não cresça emocionalmente negligenciada. Cada família saberá gerir as suas prioridades, possibilidades e o equilíbrio destas.

Os pais devem sempre decidir com consciência e perspectiva, como desejam o sono de “amanhã” para poderem planear e estruturar esse ensino e começá-lo cedo na vida do bebé, com coerência:  

- Se desejam dormir de hoje em diante sempre com o bebé e depois criança, devendo permitir que seja a própria criança a decidir quando quer deixar de o fazer: doutro modo poderá sentir-se “despromovida” por razões que não compreende - o que poderá afetar o laço de confiança com os pais.
Ou
- Se preferem ensinar um padrão de sono em que o bebé aprende a sentir se seguro para adormecer e dormir de forma autónoma na sua cama, visto ser onde os pais esperam que ele venha a dormir bem e seguro, todos as noites, daqui para a frente – o que pode ter como excepção (normalmente bem aceite) dormir com os pais em dias especiais ou de pontual necessidade.

É muito relevante traçar a “rota” escolhida. Acima de tudo esta decisão consciente vai ajudar a prevenir uma tendência aleatória de respostas ao bebé – quando os pais experimentam, de forma não consistente, várias alternativas para perceber o que funciona melhor, pois a aleatoriedade e o “experimentalismo” são algumas das causas de insegurança no bebé.


 CO-SLEEPING PLANEADO - Os Pais decidem conscientemente praticar co-sleeping com o bebé, desde que nasce, durante toda a noite, todas as noites daí para a frente.

Prós:

- Constância: Por ser planeado vai ser uma resposta coerente por parte dos pais, e por isso não tem variações: o bebé sente-se seguro e aprende o que esperar, sendo deste modo correspondido.
- Coerência: O bebé pode ser adormecido com toque e companhia que caso desperte está em companhia, sem esforço para os pais.
- Amamentação cómoda e prática.
- Temperatura: controla-se melhor.
- O bebé poderá conseguir consolidar o seu sono nocturno contínuo: Caso o co-sleeping seja mantido o tempo necessário até o bebé/criança não ter dependência de mamar ou chuchar na mama para readormecer (caso o fizesse).

Contras:

- Sestas: Pode influenciar negativamente a duração, qualidade e distribuição das sestas (o sono diurno tem muita importância para o sono da noite do bebé) pois à noite os pais estão a dormir, mas durante o dia nem sempre querem ou podem fazê-lo.
- Desmame noturno tardio: O bebé poderá mamar durante a madrugada de forma padronizada até muito tarde, atrasando a regulação dos ritmos de alimentação, ficando habituado por mais tempo a precisar de alimentar-se durante a madrugada. Essa é uma das causas do enraizamento de despertares (impeditivos do sono contínuo).
- Descontrolo da amamentação: O bebé mama, mas também faz do movimento de mamar a sua chucha para readormecer.
- Desequilíbrio dos ritmos de alimentação: O mais saudável será a alimentação ser gradualmente optimizada e melhorada através dos hábitos de alimentação durante o dia, e não uma tendência de compensação de fome à noite.
- Intimidade dos Pais: Impossibilita ou dificulta os movimentos dos pais enquanto casal, restringindo o espaço físico e a sua intimidade.
- Quais as causas do mau sono? O bebé pode dormir mal despertando a chorar, deixando os pais baralhados. Os Pais podem ter dificuldade em avaliar as reais causas do choro.
- Desconforto físico para os pais: Os bebés não têm noção da posição para dormir e podem ser incómodos para os pais - é comum os pais queixarem-se por acordar com pernas, braços e rabos na sua cara, e mesmo com o bebé a dormir bem, são os pais que não dormem tão bem.
- Transição para berço e quarto: Pode atrasar, dificultar ou mesmo impossibilitar uma tranquila transição para o seu quarto e cama.
- Falsa expectativa da hora de ir dormir: O bebé poderá crescer com a noção que vai dormir quando toda a gente em casa, também vai. Quando começar a desconfiar que não é assim, pode ser difícil que durma.


CO-SLEEPING ACIDENTAL: Quando os Pais não o desejaram nem o planearam mas, em busca de uma solução para o bebé dormir bem, experimentaram e correu bem, no entanto, os pais não desejam esse padrão.

Prós:
- Poderá ser solução para o bebé dormir a meio da noite, numa noite difícil (no entanto, poderá ser solução de curto prazo).

Contras:
Além dos mencionados no co-sleeping planeado;
- Intensifica uma atitude regressiva por parte do bebé, neste caso para dormir.
- Incoerência para as expectativas do bebé - O bebé rapidamente aprende que a solução para se sentir seguro quando chora é estar a dormir com os pais, no entanto os pais todos os dias tentam adormece-lo e deitá-lo no berço, pelo menos no início da noite, e quando o bebé dá por isso já se encontra no berço sozinho.
- Incentivo para o bebé acordar: Inadvertido incentivo para o bebé despertar e demarcar o seu acordar todas a noites, chamando os pais ou chorando, na expectativa da nova solução para dormir àquela hora.
- Muito tempo para readormecer: O bebé poderá ter dificuldade em acalmar-se e readormecer por estar baralhado. Não sabe se é seguro dormir ali ou o melhor é mesmo ir para a cama dos pais. Mais crescidos poderão chorar pela expectativa de ir para a cama dos pais, até se concretizar, leve o tempo que levar, torna-se uma necessidade genuína.
- Intensifica a insegurança - O bebé poderá sentir-se muito inseguro para tudo o que se passe longe do corpo da mãe/pai, em especial para um acto na qual ele deixa de controlar - quando adormece - a falta de padrão ensinou-lhe que ele é posto no seu berço para dormir, mas se acordar e tiver muita dificuldade em readormecer, então a solução passa por estar fora daquele berço, mais precisamente, na cama com os pais. O bebé poderá construir uma percepção de que, quando as coisas ficam difíceis a meio da noite, só será possível resolvê-las junto ao corpo dos pais, e ele esperará por isso - o seu berço passa a ser um local pouco confortável à sua perceção.


CO-NO-SLEEPING - Quando o co-sleeping não funciona para ninguém
O bebé dorme com os Pais, que começaram a usar o co-sleeping como solução para um problema enraizado de mau sono (sem avaliar todas as variáveis), e o bebé depois de um tempo a dormir melhor volta novamente a dormir mal, despertando e chorando. Mas já se encontra a dormir padronizadamente na cama dos pais.

Quando se chega ao co-sleeping acidental como solução para o bebé dormir, tipicamente este poderá transforma-se num Co-no-sleeping e não funcionar para ninguém. Normalmente é sinal que já se tentou de tudo para que o bebé dormisse a noite toda sem interrupções demarcadas com choro e desconforto. Depois de tantas tentativas com soluções diferentes (ao colo, no berço, na cama dos pais, etc.), o bebé está muito baralhado, inseguro e desconfiado, para dormir.

A recuperação de uma situação que se encontra no fim da linha para os Pais, como o do Co-no-sleeping é um caminho que passa, não só por ensinar a dormir, mas também por um processo de recuperação de confiança do bebé, cujas noções de segurança e expectativas poderão estar completamente baralhadas, juntamente com as causas iniciais do mau sono, ainda por resolver. Quando um bebé mês após mês continua a não padronizar o sono contínuo noturno, as causas devem ser analisadas para que não agravem.

Por norma, todos os bebés adormecidos ao colo ou em companhia, tendem a sentir necessidade dessa mesma companhia para readormecer caso despertem a meio da noite. Muitas vezes os pais não planearam fazer co-sleeping, mas inadvertidamente, ao não ensinarem os seus bebés a conciliarem o seu sono de forma autónoma, através de um plano estruturado ao longo dos seus primeiros 12 meses, acabam por dar ao bebé razões para acordar/“chamar” por eles as vezes necessárias para readormecer - pois é a forma que conhecem para adormecer (excluindo causas que advêm da rotina diurna desajustada, ou mesmo mau e pouco sono diurno, para a idade). Se os Pais, por cansaço, experimentaram pôr o bebé a dormir com eles, possivelmente poderá ter acontecido que este tenha dormido lindamente. Se o bebé foi adormecido durante doze meses ao colo, com toque e/ou companhia, ele foi preparado e ensinado para dormir com os pais.

É também normal que, quando já não dormir na “cama de grades”, o bebé/criança tenda a ir para a cama dos pais pelo seu próprio pé, todas as noites. Se ele não se sente seguro a dormir sozinho na sua caminha, não aprendeu a fazê-lo ao longo do seu crescimento, irá sempre seguir o ímpeto cada vez mais consciente - “tenho medo de estar sozinho” e procurar a cama dos Pais. Mesmo crianças que enquanto bebés foram ensinadas de forma estruturada e consolidada a adormecer autonomamente e no momento adequado passados para o seu quarto, poderão tentar em certas fases ir para a cama dos pais. Caberá aos pais adequar a “resposta”, sabendo que esta poderá atenuar ou acentuar essa tendência.


O co-sleeping é um prazer para todos quando não é fruto de uma “não escolha”. Para ser uma escolha, é preciso consolidar um padrão, idealmente que promova o melhor sono, desde cedo - para todos e por todos.


A influência do comportamento dos pais na educação dos filhos. Artigo com a Psicóloga Ana Amaro Trindade

A nossa vivência atual acelerada orienta-nos para a procura rápida, e com pouco esforço, de resultados. O que se espera da educação não foge à tendência. Cada vez mais, surgem soluções para resolver as dificuldades que os pais vão sentindo ao educar os filhos, mas poucas apontam para a influência central na educação: as pessoas que os pais são e como se comportam. Procuram-se estratégias isoladas para lidar com a questão X ou Y, foca-se o “problema” na criança e nunca no comportamento dos pais. Torna-se fundamental consciencializar os pais da importância que têm junto dos filhos. É no dia a dia, nas pequenas coisas a que não damos valor, que o mais importante acontece.

O impacto da postura e do comportamento dos pais nos seus filhos começa enquanto estes ainda são bebés. É comum achar-se que, por serem muito pequenos, os bebés não nos compreendem ou não prestam atenção ao que dizemos e à forma como o dizemos, mas isso não é verdade. Os bebés estão muito atentos ao comportamento dos pais. Observam como estes reagem no dia-a-dia, mas também como respondem ao seu choro e ao seu desconforto. É através desta observação e através da “sintonização” com a forma de sentir e de reagir dos pais, que os bebés organizam o seu mundo interno.

Se um bebé está a chorar, espera dos pais uma resposta que lhe alivie o desconforto. Se os pais não mantêm uma postura de tranquilidade, se eles próprios se descontrolam (na respiração que fica acelerada, no tom e no volume da voz, fazendo movimentos bruscos), o bebé terá tendência a sentir-se mais inseguro. Se os pais espelham o desconforto do bebé, estão a intensificá-lo e o bebé não aprende novas formas de reagir nem de lidar com o mal-estar. Transmitir calma pressupõe, da parte dos pais, uma respiração desacelerada, movimentos firmes e lentos e uma postura confiante, combinada com uma comunicação simples e pausada de quem acredita no que propõe. O bebé poderá aprender a acalmar-se sintonizando com o estado de calma dos pais, se estes comportamentos forem demonstrados de forma congruente.

Também as crianças estão muito atentas à postura e ao comportamento dos pais. O exemplo que os pais dão é fundamental na educação e na formação do carácter dos filhos. A aprendizagem de valores é feita por observação – por verem o que os pais e adultos à sua volta fazem, as decisões que tomam e os caminhos que escolhem. É no dia a dia, através do próprio comportamento dos pais, que se ensina o respeito, a compaixão e empatia com os outros, mas também a honestidade e a coragem. Devemos mostrar que tentamos dar sempre o nosso melhor, não só para termos bons resultados, mas também pelo bem dos outros à nossa volta. A importância que damos aos aspetos materiais tem também impacto na formação do carácter da criança – se atribuímos valor às pessoas pelo que possuem, a criança aprenderá a fazer o mesmo. Deve-se ensinar a distinguir aquilo de que precisamos daquilo que queremos, tal como a distinguir o que as pessoas são daquilo que têm.

As histórias que contamos às crianças têm também um grande impacto na aprendizagem de valores, pois, para além de muitas vezes apresentarem uma “moral”, as crianças aprendem com os comportamentos das personagens. Os pais devem discutir as histórias com as crianças, pedindo-lhes que pensem nos valores transmitidos pelas histórias: Porque é que as personagens se comportaram assim? Tinham bons motivos? As decisões foram boas? Como ultrapassaram obstáculos? Quem eram os heróis e porquê? A história acabou bem - bem para quem?

Devemos ainda apresentar às crianças aquilo que esperamos delas em determinada situação e os valores que queremos que respeitem de forma clara, sendo consistentes - se um determinado comportamento não é aceitável, então não é aceitável nunca, e não apenas quando os pais não estão cansados e se sentem com disposição para serem persistentes. As regras devem estar bem definidas, bem como as consequências do seu incumprimento. No entanto, é fundamental que os pais também as cumpram - não serve de muito os pais castigarem a criança porque grita, se eles mesmos, facilmente, levantam a voz quando estão irritados; ou não autorizarem a criança a levantar-se da mesa antes de acabar de comer, se eles próprios se levantam constantemente para atender o telefone.


Nada tem mais impacto na educação de uma criança do que o comportamento dos pais. Muito mais importante do que o que os pais dizem que se deve fazer, é o que os pais mostram que se deve fazer. As palavras são importantes, mas as ações são mais. Devemos mostrar que, enquanto pais, aquilo que exigimos é aquilo em que acreditamos e que, por isso mesmo, vivemos dessa forma.